Assunto foi apresentado por Virgínia Sodré, CEO da empresa Valor da Água, a primeira climatech brasileira especializada em inteligência hídrica
7 de outubro de 2026
A apresentação de uma plataforma tecnológica para monitoramento de riscos climáticos e gestão hídrica territorial foi o destaque da 113ª Reunião Ordinária da Câmara Técnica de Uso e Conservação da Água na Indústria (CT-Indústria), realizada nesta quarta-feira, dia 7 de outubro, por videoconferência, sob a condução do coordenador Jorge Mercanti.
A ferramenta foi desenvolvida pela empresa Valor da Água — a primeira climatech (startup de tecnologia climática) brasileira especializada em inteligência hídrica — e utiliza inteligência artificial e dados geoespaciais para avaliar estresse hídrico e cascatas de risco, podendo ser utilizada por empresas e comitês de bacias. A tecnologia foi apresentada pela engenheira civil e mestre em Engenharia Hidráulica e Saneamento Virgínia Sodré, CEO e cofundadora da Valor da Água.
Virgínia apresentou o conceito corporativo de “água positiva”, que envolve devolver mais água do que a consumida, melhorar sua qualidade e garantir acesso comunitário na bacia, diferenciando o crédito de água do crédito de carbono devido à natureza territorial do recurso. Ela ressaltou que, até 2050, cerca de 8% do PIB global poderá ser perdido devido à crise hídrica, tornando a resiliência hídrica um fator de continuidade operacional.
“Se vocês colocarem hoje no Google as empresas que são ‘water positive’, esse conceito de regenerar o impacto da sua operação vem crescendo por uma questão de continuidade operacional. Não é só uma questão de ESG. Tem uma vantagem econômica para as empresas que estão olhando o território, entendendo o risco da bacia”, explicou a CEO.
Virgínia detalhou que a plataforma da Valor da Água integra visões operacional e estratégica para auxiliar na tomada de decisões diante de outorgas dinâmicas e riscos regulatórios e climáticos. A ferramenta utiliza inteligência artificial, dados de satélite e bases nacionais e internacionais para fornecer diagnósticos preditivos e avaliações de risco territorial.
Além da CEO, a apresentação contou com a participação do fundador e CTO da Valor da Água, Alex Staudt Takaoka, e dos técnicos Arthur Bispo Ferreira e Leonardo Dias. Takaoka demonstrou a arquitetura multiempresa da plataforma, que incorpora datasets do WRI Aqueduct, com 13 índices de risco e cenários futuros até 2080, dados do SNIS (Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento) e o fator Aware, da ANA (Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico), para caracterização da pegada hídrica. Ele ainda exibiu um exemplo prático em que a inteligência artificial gerou um relatório preliminar e uma leitura contextual do entorno da unidade da ArcelorMittal em Carbonita (MG), com base em normas como ISO 14046 e GRI.
Ferreira apresentou a aplicação da plataforma na Bacia do Rio Guandu, no Rio de Janeiro, utilizando uma metodologia de avaliação de riscos em cascata baseada em ameaças externas, exposição de infraestrutura e vulnerabilidades. Segundo ele, a avaliação de estresse hídrico considera outorgas disponíveis, volume de água em aquíferos e reservatórios, além da geolocalização de estações de tratamento de água e esgoto, aterros e áreas de preservação permanente, em quatro escalas diferentes.
Dias apresentou o módulo operacional, demonstrando o monitoramento de telemetria com diversos tipos de sensores de parâmetros qualitativos e quantitativos, a construção do mapa de água para rastrear captação, reserva e uso, e a geração de diagramas de Sankey para identificar perdas hídricas em empreendimentos.
“Eu, sinceramente, fiquei empolgado porque realmente é uma ferramenta poderosa. Eu falo porque sou do tempo ainda dos dinossauros, pegava touro a unha. Com todo esse aparato tecnológico de IA e tudo mais, a gente fica abismado com a possibilidade que pode ser feito”, destacou Mercanti.
Situação do Sistema Cantareira e Bacias PCJ
No início do encontro, Mercanti fez um breve relato sobre a situação do Sistema Cantareira e das Bacias PCJ, além de apresentar previsões hidrometeorológicas para a região nos próximos meses.
Segundo o coordenador da CT-Indústria, na região do Cantareira, as chuvas atingiram 1.495 milímetros entre setembro e o início de outubro de 2026, pouco acima da média climatológica anual, de 1.491 mm. Em 2014, durante a crise hídrica, o total de precipitação foi de 964 mm. Devido ao grande volume de chuvas, o Sistema Cantareira deixou a faixa de alerta e passou para a faixa de atenção, com 41,7% do volume útil total em 7 de outubro.
Mercanti explicou o estabelecimento do fenômeno El Niño a partir de junho, com intensificação prevista até o final do ano e arrefecimento no primeiro trimestre do próximo ano. Segundo projeções, as chuvas devem se concentrar mais na região Sul e no Uruguai nos próximos meses, enquanto o estado de São Paulo deve apresentar volumes ligeiramente acima da média, embora com a formação de alta pressão quente no verão, o que dificulta a progressão de frentes frias.
“Apesar dessa chuva, nós não estamos confortáveis. Podemos ter problemas lá na frente, com um verão muito quente e seco”, alertou Mercanti. Ele também chamou a atenção para os riscos do desmatamento na Amazônia, apontando que sua destruição transformaria a região em um deserto devido à interrupção dos ventos úmidos de noroeste.
Próxima reunião
A 114ª Reunião Ordinária da CT-Indústria será realizada por videoconferência no dia 9 de dezembro, a partir das 9h.
