Apresentações ocorreram na 14ª Reunião Ordinária da CT, realizada por videoconferência
26 de agosto de 2026
Representantes do Imaflora e da SIMBiOSE participaram da 14ª Reunião Ordinária da Câmara Técnica de Conservação e Proteção dos Mananciais (CT-Mananciais), realizada no dia 26 de agosto, por videoconferência, para apresentação de projetos de restauração florestal e licenciamento urbano.
André del Gaudio Chaves e Letícia Fazio, da equipe de Floresta e Restauração do Imaflora, apresentaram o Projeto Plantar Vida, que trata da restauração do rio Camanducaia. O projeto nasceu de uma união entre as organizações Ypê, SOS Mata Atlântica e H₂A HUB AgroAmbiental. A estratégia foi baseada na matriz de materialidade da Ypê, que identificou a água como insumo crítico e a segurança hídrica como um fator determinante para a continuidade da produção na região.
Para a elaboração do estudo, foram consideradas as características hidrológicas, fundiárias e do relevo, além da conformidade com a Lei de Proteção da Vegetação Nativa e com o uso e a cobertura do solo.
André detalhou a elaboração do estudo, que começou com a etapa de priorização, na qual a base ottocodificada da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA) foi dividida em 120 unidades hidrográficas, agrupadas em seis grupos, para classificar os níveis de prioridade de A a F, sendo A o mais prioritário e F o menos prioritário, contemplando sete municípios. A análise estimou um potencial de restauração de aproximadamente 7,2 mil hectares, sendo 4,9 mil referentes a déficits de Reserva Legal e 2,3 mil de Áreas de Preservação Permanente (APP), com potencial para ampliar a cobertura de vegetação nativa da área de estudo de 22,5% para 33,3%.
No primeiro ciclo do projeto, de 2024 a 2025, o escopo contemplou a execução completa da restauração, a manutenção entre 12 e 24 meses, o seguro contra incêndio e geada e a mensuração de carbono. Entre os resultados alcançados, a fase prática do projeto mapeou sete propriedades rurais, totalizando 29 hectares de plantio. Foram utilizadas 33.500 mudas de 61 espécies diferentes, impactando diretamente cerca de 50 pessoas nos municípios de Amparo, Serra Negra e Monte Alegre do Sul. A execução contou com parcerias com o setor de viveiros, incluindo Copaíba, Reconecta e SOS Mata Atlântica.
No segundo ciclo, de 2025 a 2026, o escopo contemplou a execução completa da restauração, a manutenção por 24 meses, o seguro contra incêndio e geada e a mensuração de carbono. Estão em andamento a implantação de 29 hectares, a prospecção de novos municípios, como Socorro e Pinhalzinho, além dos já contemplados, e a articulação com parceiros públicos e privados da região. Foram incorporados aprendizados, como a necessidade de lidar com a fragilidade financeira de pequenas propriedades, a falta de cercamento e o desafio da declividade.
A análise revelou que 99% das propriedades registradas no Cadastro Ambiental Rural (CAR) na região são consideradas pequenas propriedades, sendo que 64% possuem menos de 2 hectares. Esse cenário complexo, marcado pela alta fragmentação e por áreas pequenas, exige uma abordagem cuidadosa, especialmente no que diz respeito à manutenção do plantio, fator crítico para o sucesso da restauração e que demanda apoio continuado além da fase de implantação.
Como novidade, André citou o lançamento de uma oficina virtual sobre manutenção de áreas restauradas, disponível gratuitamente no YouTube do Imaflora. O conteúdo é composto por 15 videoaulas, com duração total de 50 minutos, e oferece certificado ao final. O curso aborda as principais questões que afetam os plantios e como resolvê-las, desde a explicação teórica até a demonstração do passo a passo em campo.
Diagnóstico Socioambiental da Região do Marmeleiro
Bruna Locardi e Thais Rosa, da SIMBiOSE, apresentaram o diagnóstico da região do Marmeleiro, em Atibaia, destacando a atuação da organização e do Coletivo Socioambiental. Elas expuseram o risco de urbanização em áreas limítrofes ao Parque Estadual do Itapetinga e à Área de Proteção Ambiental (APA) Cantareira, onde existem projetos de loteamentos tradicionais em áreas suscetíveis a enxurradas, abrangendo 117 hectares ocupados e 210 hectares em processo de conversão.
Bruna Locardi apresentou dados sobre a pressão de nove novos loteamentos na bacia dos Pintos, com previsão de 2.700 novos lotes e 210 hectares de impermeabilização do solo. Apenas 21% dessas áreas possuem proteção integral, enquanto o restante está inserido em zonas de proteção de atributos da Área de Proteção Ambiental do Sistema Cantareira, o que agrava os riscos de desastres, como enxurradas e movimentos de massa.
Thais Rosa destacou que esses empreendimentos ocupam a única faixa de conectividade regional existente entre a Serra e a Área de Proteção Ambiental do Rio Atibaia. Além disso, observou-se que o licenciamento tem analisado os loteamentos individualmente, sem exigir estudos sinérgicos previstos legalmente para a zona de amortecimento, resultando em projetos chancelados sem a devida consideração ambiental.
Foi apontada a falta de eficácia dos planos diretores e de drenagem urbana, sendo que o plano de 2019 não reflete a conversão de uso do solo realizada nos últimos 15 anos. Bruna Locardi criticou a ausência de licenciamento bifásico e o desalinhamento entre prefeitura e estado, enfatizando a necessidade de adotar soluções baseadas na natureza e conceitos de cidades-esponja.
Bruna Locardi defendeu a importância de um Ministério Público especializado em meio ambiente, como os Grupos de Atuação Especial de Defesa do Meio Ambiente (GAEMA), para lidar com a complexidade das questões relacionadas à conservação e aos mananciais, visto que promotores comuns muitas vezes carecem de suporte técnico específico.
Também houve a aprovação do Instituto de Proteção Socioambiental da Bacia Hidrográfica do Rio Corumbataí (IPSA-C), tendo Maurício Magossi como titular e Audrei Juliana Marques Fedatto como suplente.
A próxima reunião da CT-Mananciais será realizada no dia 21 de outubro, às 9h30, presencialmente, no Centro de Estudo e Cultura Ambiental, em Santa Bárbara d’Oeste/SP.
