| ÚLTIMAS

CT-SA debate cenário do saneamento e desafios para cumprir o Novo Marco Legal

Palestra de diretor da Aesbe destacou necessidade de ampliar investimentos e apontou limitações para atingir a universalização até 2033

9 de abril de 2026

Os avanços e desafios do Novo Marco Legal do Saneamento foram um dos principais assuntos discutidos durante a 133ª Reunião Ordinária da Câmara Técnica de Saneamento (CT-SA), realizada nesta quinta-feira, dia 9 de abril, por videoconferência e conduzida pelo coordenador Mateus Arantes. O tema foi abordado pelo diretor-executivo da Aesbe (Associação Brasileira das Empresas Estaduais de Saneamento), Sergio Antonio Gonçalves.

As metas de universalização perseguidas pelo setor são de 99% de atendimento da população com água potável e 90% com esgotamento sanitário até 2033. Segundo Gonçalves, a legislação foi baseada no Plano Nacional de Saneamento Básico de 2013, enquanto a Lei Federal do Novo Marco do Saneamento é de 2020, o que resultou em um prazo menor para o cumprimento dos objetivos.

De acordo com ele, a Aesbe realizou um estudo indicando que, entre 2002 e 2022, foram investidos R$ 392 bilhões no setor. No entanto, para atingir a universalização, o Brasil ainda precisa investir entre R$ 550 bilhões (estimativa do Trata Brasil) e R$ 816 bilhões (estimativa do Ministério das Cidades) em menos de 10 anos. Isso exige que o investimento anual seja mais do que dobrado, passando de R$ 20 bilhões para mais de R$ 40 bilhões.

Gonçalves ressaltou que o saneamento tem forte impacto na economia, mobilizando a indústria e gerando renda e empregos em diversos níveis de especialização. Segundo ele, o investimento de quase R$ 1 bilhão no setor pode gerar até R$ 1,4 trilhão em movimentação econômica. O diretor também enfatizou que saneamento é saúde: municípios que buscam a universalização apresentam taxa de ocupação de 24 leitos por doenças relacionadas ao saneamento, enquanto municípios com indicadores ruins chegam a 195 leitos ocupados, evidenciando a importância do setor para a saúde pública.

O palestrante destacou que, para universalizar o acesso, é fundamental identificar “quem não está sendo atendido” e “onde essas pessoas estão”, de modo a aplicar políticas públicas e tecnologias adequadas, incluindo o uso de subsídios cruzados — prática que consiste em cobrar mais de determinados consumidores para reduzir o custo para outros grupos.

Gonçalves também defendeu a necessidade de “quebrar paradigmas” e “ousar na gestão”, uma vez que não existe um modelo único aplicável a todos os contextos, especialmente em áreas rurais, comunidades dispersas ou periferias urbanas. Além disso, apontou que a crise climática e a chamada “falência hídrica global” tornam os desafios ainda mais complexos, com impactos diretos sobre os sistemas de saneamento.

Ele ainda ressaltou que a integração entre planejamento intersetorial, gestão, regulação e controle é essencial, destacando a importância de aprender com experiências como o Sisar, no Ceará. Segundo Gonçalves, em determinados contextos, a atuação do setor precisa ser mais social e menos centrada apenas na engenharia, exigindo soluções adaptadas a realidades como áreas de palafitas. O diretor também criticou o pagamento de outorgas, afirmando que esses recursos acabam sendo retirados do setor e repassados às tarifas, o que pode postergar investimentos.

Questionado sobre a viabilidade de atingir as metas de universalização até 2033, Gonçalves foi categórico ao responder “não”. “Muitos municípios vão atingir, como alguns já estão bem avançados, o que já é um indicador importante. Mas afirmar que todos os 5.571 municípios brasileiros alcançarão essa meta em 2033, isso não. Infelizmente, não. Estamos avançando razoavelmente bem, os investimentos aumentaram, mas o tempo ainda é insuficiente. As dificuldades são maiores em áreas dispersas ou em periferias densas, com ocupações em fundos de vale e áreas sensíveis. Não teremos tempo para resolver tudo até 2033, embora estejamos no caminho”, concluiu.

Projeto Fapesp

No encontro, Gabriela Canindé (USP) apresentou o andamento do projeto da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo) em parceria com a USP (Universidade de São Paulo), intitulado “Plataforma de monitoramento e avaliação do Plano das Bacias dos Rios Piracicaba, Capivari e Jundiaí no Estado de São Paulo”. A proposta visa contribuir para o monitoramento do Plano das Bacias PCJ, com foco na avaliação de desempenho das ações.

O projeto busca formalizar convênios com operadoras de saneamento para facilitar a troca de informações. Gabriela ressaltou que não há vínculo financeiro, já que o projeto é subsidiado pela Fapesp. A formalização tem como objetivo garantir a proteção das informações, que serão utilizadas exclusivamente pelo grupo de pesquisa para processamento dos dados.

Para isso, foi elaborado um questionário com a finalidade de apoiar a definição de indicadores e subsidiar a plataforma, que deverá ser utilizada pelos operadores na gestão de perdas. O cronograma inclui levantamento de prioridades, coleta de dados, workshops de validação e, no último ano (2028), o desenvolvimento de módulos de ensino a distância (EAD) para capacitação de gestores.

“O projeto é muito importante em relação à regionalização das Bacias PCJ, especialmente pelas questões relacionadas aos índices de perdas de água e sua redução. Esperamos que a plataforma contribua para a gestão integrada da bacia e ofereça aos operadores uma ferramenta efetiva de apoio à gestão”, destacou a pesquisadora.

O pesquisador responsável, professor Tadeu Fabrício Malheiros, coordenador da CT-ID, explicou que a plataforma está sendo estruturada como instrumento de apoio. “Estamos desenvolvendo essa plataforma alinhada ao guia de controle de perdas que a CT-SA está elaborando. Trouxemos experiências externas, mas o guia foi essencial para essa estruturação. A ideia é que seja uma ferramenta de apoio à Agência PCJ e aos Comitês, e não algo puramente teórico”, afirmou.

Arantes reforçou a importância da participação dos prestadores de serviços que integram a CT-SA. “Não há custos nem grande demanda de tempo. Essa plataforma será muito importante para a gestão de perdas nas Bacias PCJ. A consequência é mais água disponível e menos desperdício, já que não é possível ‘produzir’ água”, comentou.

Guia para gestão de perdas de água

A reunião também contou com a discussão sobre o andamento da nota técnica que está sendo elaborada pelos integrantes da CT-SA, com diretrizes gerais para a gestão de perdas de água. A deliberação sobre o tema já foi aprovada pelos Comitês PCJ em plenária realizada em agosto de 2025.

O documento funcionará como um guia para orientar os prestadores de serviço na redução de perdas e na busca por maior eficiência. “Precisamos detalhar as regras, mas antes é necessário compreender a realidade de cada município, para evitar a criação de barreiras ao acesso a recursos. Caso contrário, os investimentos podem acabar sendo comprometidos”, explicou Arantes.

A próxima reunião do GT-Perdas está agendada para o dia 12 de maio, por videoconferência.

Capacitação

Ao final da reunião, a analista da Secretaria Executiva dos Comitês PCJ, Raquel Quirino, apresentou a importância da capacitação contínua dos membros dos colegiados, com o objetivo de reduzir assimetrias de conhecimento e fortalecer o embasamento técnico das decisões. A iniciativa está vinculada à Deliberação CRH nº 248/2021, que avalia o desempenho dos comitês para a distribuição dos recursos da Compensação Financeira pela Utilização de Recursos Hídricos (CFURH).

A capacitação corresponde a 25% da nota de desempenho, sendo necessário que mais de 50% dos membros estejam capacitados para alcançar a pontuação máxima. Entre as atividades consideradas estão cursos técnicos, especializações, cursos online (como os oferecidos pela ANA, ENAP e Capacita SigRH), além de palestras, eventos e workshops. Os certificados podem ser enviados para o e-mail da Secretaria Executiva: se.pcj@comites.baciaspcj.org.br.

Próxima reunião

A 134ª Reunião Ordinária da CT-SA está agendada para o dia 11 de junho, a partir das 9h30, no auditório da Faculdade de Tecnologia da Unicamp, em Limeira (SP).

Page Reader Press Enter to Read Page Content Out Loud Press Enter to Pause or Restart Reading Page Content Out Loud Press Enter to Stop Reading Page Content Out Loud Screen Reader Support